A Exuberância da Vida no Equador (parte 2)

A Exuberância da Vida no Equador (parte 2)

Regressamos de nosso compromisso familiar no Brasil e pousamos no Equador mortos de saudades de nossa vida na estrada. Parece incrível mas, mesmo sentindo muito a falta de nossas famílias, a vontade de voltar à rotina da viagem era enorme.  Esse tempo longe da estrada nos deu uma clara noção do quanto já nos habituamos a ela e o quão difícil será para deixá-la no futuro, se for o caso.

Chegamos em Quito e fomos direto ao camping onde havíamos deixado o Roots durante nossa ausência.  Levamos de volta para o Brasil muita coisa que não estávamos usando na viagem e trazido algumas outras, principalmente livros, comidas e temperos, e antes de seguirmos viagem precisávamos reorganizar o carro.  Enquanto estávamos por lá, o Rafael e a Mileide (Expedição Raízes da Terra) foram ao nosso encontro e por alguns dias ficamos juntos na capital equatoriana.

Conhecemos um pouco mais da cidade na companhia do Santiago, um aficcionado por Defender que gerencia o grupo Land Rover no país e que, gentilmente, se ofereceu para nos apresentar sua cidade e dar-nos um belíssimo apoio.  Em sua agradabilíssima companhia fizemos alguns passeios pela cidade, conhecemos lugares e restaurantes fora do circuito turístico, batemos altos papos e, ainda, tivemos um suporte fenomenal para tudo que precisamos. De mecânico a uma partida de futebol, ele providenciou praticamente tudo, inclusive dicas sobre locais na costa e no caminho para Colômbia. A amizade do Santiago foi um dos vários presentes que o Equador nos deu.

Na companhia do Rafael e da Mileide, descemos a serra após alguns dias de Quito e partimos para a província de Manabi, com destino à costa equatoriana.  A primeira parada foi em Punta Prieta, que havia sido muito recomendado pela família do Santiago.

Sem saber muito sobre o local, chegamos à noite sem ter noção exata de onde estávamos nos estabelecendo.  Punta Prieta é uma praia que fica entre as cidades de Jama e Pedernales com uma pequena colônia de pescadores e havíamos encontrado a referência de um hostal-camping no IOverlander.  Tínhamos a esperança que o amanhecer nos traria uma grata surpresa, já que a proximidade do barulho das ondas e a brisa fresca nos davam boas indicações de que o local que escolhemos para ficar seria bem agradável. 

Organizamos então nossas barracas de teto e começamos a preparar nosso jantar quando o terceiro casal chegou.  Assim como o Rafa e a Mileidi, o Leonardo e a Alessandra (Expedição Mundi360) também estavam em Quito na mesma época e havíamos combinado de passar juntos o natal e o réveillon no litoral.

Com o alvorecer do dia conseguimos ter a dimensão da beleza que era o lugar. Esse “hostal-camping” havia sido construído sobre uma rocha que se ergue no meio da praia e do alto dessa colina tínhamos uma vista privilegiada dos lados norte e sul da praia.  Estávamos literalmente no meio da praia do meio do mundo. Era uma manhã de céu azul e o mar esbanjava um verde bem vivo.  O local era bem rústico, com umas cabanas construídas em meio à vegetação, pertíssimo da praia e, ainda, estávamos em companhia muito agradável….que cenário perfeito.

Melhor que isso, o camping também tinha uma pequena estrutura à beira da praia e, depois de avaliarmos o local e pedirmos autorização aos donos, descemos a colina e ficamos o resto dos dias com nossos carros acampados na praia. O plano era visitar outros lugares da costa até o réveillon, mas estávamos tão bem instalados nessa excepcional praia semi-desértica que resolvemos ficar por ali mesmo em Punta Prieta.

Praticamente vivendo com o pé na areia, aproveitamos os dias para fazermos umas caminhadas, dar umas corridinhas na areia, tomar banhos de mar diuturnamente, preparar deliciosas refeições com camarões e peixes frescos, deitar na rede e ficar lendo ou simplesmente deixar o tempo passar, observar os poentes lindos naquela praia. Todos os dias foram tão encantadores que nem mesmo as comemorações especiais de natal e réveillon ofuscaram os demais dias. 

Certamente não foi só uma mera coincidência, mas sem nos darmos conta havíamos participado de um belíssimo mini- encontro de viajantes de Defenders no Equador.  Eram três casais brasileiros que haviam tomado decisões de vida semelhantes, que estavam viajando no mesmo modelo de carro e que passavam pela mesma cidade na mesma época.  Aproveitamos a oportunidade de estarmos juntos, na companhia desses outros viajantes e trocamos muitas idéias e experiências.  Além de divertido, foi muito interessante perceber que apesar das características e estilos peculiares de cada um, o aprendizado que uma viagem dessa promove é enorme e transformador para todos. As passagens, percepções e lições tiradas pelos demais casais tinham muitas similitudes com as nossas.

Somente após a passagem do ano é que nos arriscamos a ir para outro lugar.  A praia de Cojimies, alguns quilômetros mais ao norte, havia sido também recomendada pela família do Santiago e parecia ser uma excelente opção de acordo com nossas pesquisas. 

Partimos, então, todos juntos para esse novo local e encontramos mais um lugar fantástico na costa.  A região é recoberta por imensos coqueirais e o local que escolhemos para ficar era deserto.  Havia uma pequena estrutura na beira da praia que pertencia a uma pousada e que ficava envolta por diversos coqueiros e pedimos autorização para nos estabelecermos ali.  Aproveitamos mais uns dias nesse remoto e pequeno paraíso de calma e tranquilidade.

A temperatura estava deliciosa, o sol e a brisa eram abundantes, assim como os côcos e os camarões;  água de côco, cocada, arroz de côco com camarões….. foram mais dias de boa comida, boa companhia e absoluta paz em meio à natureza.

Após Cojimies os casais se separaram e cada um prosseguiu em sua própria viagem.  Nós nos mantivemos no litoral equatoriano por mais um tempo e fomos até província vizinha de Esmeraldas para conhecer a praia de Mompiche.

Ao que parece, a vila de Mompiche vem se desenvolvendo bastante devido ao turismo internacional dos últimos tempos, mas ainda permanece bastante pacata. Muitos estrangeiros chegam lá atraídos pelo surfe e pela rusticidade do local.  Lá se pode caminhar em ruas de terra, comprar pescados diretamente nos barcos que chegam pela manhã, passear pelas ilhas e mangues próximos ou, ainda, aproveitar a boa estrutura de bares e restaurantes praianos.

Os dias e as noites por lá foram muito agradáveis.

Durante o dia ficamos na praia e na orla observando o movimento das pessoas enquanto líamos nossos livros e, à noite, aproveitamos para caminhar e conhecer as opções de gastronômicas do local, que apesar de não tão sofisticada, oferecia comida simples e saborosa, principalmente no La Chocolata.

Com mais de duas semanas pela costa central do Equador decidimos seguir nossa viagem em direção à Colômbia pela Amazônia. Inicialmente nosso plano era percorrer toda a costa norte do Equador, a chamada Rota do Sol, até a fronteira com o país vizinho, porém havíamos recebido algumas recomendações de não fazê-la por questões de segurança. Em tese o litoral norte do país não seria tão seguro quanto o restante e a fronteira colombiana pela costa era complicada e muito burocrática para se atravessar.  Não sabemos ao certo sobre a pertinência dessas observações mas, por via das dúvidas, resolvemos não arriscar e mudamos nosso roteiro.

Pegamos a estrada no sentido leste e passamos, então, mais uma vez por Quito para irmos para a Colômbia pelo oriente equatoriano, onde predomina a gigantesca selva amazônica. No caminho paramos rapidamente na capital para fazermos uma revisão preventiva no Roots, que havia recentemente completado 100mil quilômetros.  Além de nosso parceiro de viagem ter sido muito bem cuidado numa oficina de primeira qualidade em Quito, tivemos mais um dia na simpática companhia do Santiago e, ainda, experimentamos um delicioso prato de mariscos no tradicional Las Conchitas de San Lorenzo.

Seguindo pelo oriente, passamos por alguns lugares que haviam ficado pendentes em nossa primeira passagem e fizemos o percurso sem pressa nenhuma.  Nossa primeira parada foi em Papallacta, uma cidade que fica em altitude acima dos 3mil metros e possui inúmeras fontes de águas termais. Ficamos por lá aproveitando o calor das piscinas e observando as enormes montanhas recobertas por vegetação que fazem parte da gigantesca reserva Cayambe-Coca. 

No segundo dia de viagem seguimos pela estrada adentrando cada vez mais na floresta até reencontrarmos a rota pan-americana, que havíamos deixado no Perú.  A estrada é bem sinuosa nessa região do Equador mas a cada curva uma paisagem deslumbrante surgia a nossa frente. Foram quilômetros e quilômetros subindo e descendo inúmeros vales, incontáveis quedas d’água e desfiladeiros enormes em meio à selva.

Chegamos a uma outra entrada da reserva Cayambe-Coca e fizemos uma pequena trilha até a cascata San Rafael. No meio de um verde arrebatante chegamos ao mirante e aproveitamos a vista privilegiada para nos impressionar com a altura da queda e da paisagem.  De tão longa, a água parecia fazer uma dança até se encontrar na imensa piscina envolta por um paredão de pedra e diversas grutas.

Terminada a trilha de volta, retornamos ao Roots e seguimos mais um pouco até um paradeiro turístico que fica no alto de uma das altas montanhas da selva.  Além de uma deliciosa fritada, tínhamos à disposição uma visão privilegiada de 360 graus da selva e percebemos que para onde quer que olhássemos era só floresta, um verde infinito e totalmente selvagem.

Após mais quilômetros pelas sinuosas curvas da Panamericana, chegamos então a Lumbaqui, uma cidadezinha bem simples já próxima a Colômbia, onde decidimos ficar para não atravessarmos a fronteira à noite. O local onde nos estabelecemos era tão agradável e o jardim era um bosque tão frondoso que acabamos resolvendo ficar mais um dia lá relaxando e aproveitando.

As aves cantavam o dia inteiro em meio as belas e grandiosas árvores do camping do Darwin, nosso simpático anfitrião que nos contou muitas histórias interessantes durante nossa estadia por lá.  Ele era um topógrafo em Quito e decidiu mudar de vida após muitos anos de trabalho porque queria ir para um lugar mais tranquilo para criar seus filhos e ter mais tempo para viver a vida.  Tínhamos muita coisa em comum e os papos foram longos e agradáveis. Como é bom escutar as histórias das pessoas….

Em nosso terceiro dia de viagem partimos de Lumbaqui em direção à ponte internacional localizada entre General Farfán e San Miguel.  O percurso final de aproximadamente 100km até San Miguel foi bem tranquilo, assim como os trâmites aduaneiros e de imigração.  Havia pouca gente naquela fronteira, uma estrutura razoável e tudo era muito simples e rápido, com muito menos complicações que a fronteira de Rumichaca-Ipiales, que havíamos conhecido em nosso bate-e-volta à Colombia de novembro.

Chegávamos, assim, ao fim nossa estadia no Equador, nosso sétimo país desta jornada.  A todo o momento o país surpreendeu nossas expectativas e, ao longo dos quase três meses que visitamos seu território e conhecemos seu povo, só encontramos gentileza das pessoas, lindas paisagens, excelentes estradas e uma comida deliciosa.

O slogan “Ecuador ama la vida” é muito apropriado. O país é, por si só, uma prova inequívoca da exuberância da sua natureza e seu povo parece saber muito bem preservá-la e exaltá-la.

Em nossa obrigatória passagem pelo país, quando estivermos descendo para a Patagônia, é provável que visitemos o arquipélago de Galápagos e tenhamos mais uma prova da intensidade com que a vida se manifesta nesse país tão pequeno em extensão mas tão grandioso em beleza.

Parabéns ao país e muito obrigado ao seu povo.

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