A Exuberância da Vida no Equador (parte 1)

A Exuberância da Vida no Equador (parte 1)

Mais uma vez a história se repetiu. Despedimo-nos de um país com a tristeza de deixá-lo e com a esperança, sempre confirmada, de que um novo nos traria belíssimas experiências.  Nossa saída do Peru foi melancólica mas a passagem pelo Equador foi simplesmente fantástica e nos arrebatou desde o primeiro até o último dia.

O Equador é um pequeno país no noroeste do continente sul americano que fica espremido entre Peru e Colômbia. Tem pouco mais de 16 milhões de habitantes espalhados por um território que é recortado ao meio pela interminável cordilheira andina. O país é basicamente dividido em quatro regiões: a costa, a serra, a Amazônia e a parte insular (formada pelo arquipélago de Galápagos). Apesar de seu diminuto tamanho, a intensidade com que a vida se manifesta em cada uma dessas regiões é digna de um continente inteiro.

A natureza é extremamente intensa e o povo sabe muito bem como exaltá-la e usá-la de forma comedida e consciente. Para padrões sul americanos, o Equador parece ter uma consciência ambiental enorme e seu povo nos surpreendeu, parecendo estar anos-luz à frente de seus vizinhos continentais nesse quesito.  Em cada canto e em cada região o país nos deu demonstrações inequívocas de que sabe que seu maior ativo é a natureza e que preservá-la não é uma questão de modismo, mas de desenvolvimento econômico e sobrevivência.

Apesar do reduzido tamanho, o Equador foi o país que, até agora, mais dias ficamos depois do Brasil. Percorremos 5.342km ao longo de 81 dias, indo do sul ao norte e ziguezagueando entre a costa e o oriente.  Apreciamos a vivacidade e a alegria do país que são  celebradas por cada um dos equatorianos que conhecemos nesse pequeno pedaço de nossa jornada.

As boas vindas do país nos foram dadas pela Reserva Ecológica de Arenillas, que fica a poucos quilômetros da fronteira com o Peru. Um bosque seco que aparentemente não teria muita vida mas, ao contrário, nos mostrou possuir uma biodiversidade incrível. Os guarda-parques foram extremamente gentis em nos receber e nos trataram com toda educação. Bem preparados e bem instruídos, nos forneceram uma série de informações geográficas da região e, inclusive, se preocuparam em nos sugerir diversos outros locais para visitarmos no país.

Fizemos algumas trilhas pela reserva, conhecemos uma família francesa muito simpática e a Selena, uma raposa que não desgrudou da gente no período em que estivemos por lá.  Quando partimos da reserva fomos em direção a uma finca agro-ecológica, onde ficamos por alguns dias aprendendo um pouco sobre esse método muito interessante de cultivo da terra.

As frutas produzidas na finca eram impressionantemente abundantes, doces e saborosas. Mesmo algumas não tendo aquela aparência perfeita era impossível não nos esbaldarmos. Colhendo-as diretamente do pé, exatamente como nossos avós faziam há tempos,  comíamos as frutas à vontade sem qualquer preocupação em lavá-las por conta de venenos e agrotóxicos e nos deliciávamos com seu sabor.

Na companhia do Jorge e sua esposa, os proprietários que, entre outras coisas, também se dedicam a disseminar essa prática de cultivo entre os produtores da região, jantamos e batemos muitos papos sobre formas alternativas e sustentáveis de produção, distribuição e venda de alimentos desse tipo.  Para o Eduardo, que alimenta cada vez mais um sonho muito próximo a este, foi uma maravilha. Foram horas de leitura e aprendizado prático na finca ao longo desses dias.

De lá seguimos ao Bosque Petrificado, uma reserva natural onde diversas árvores que sofreram um processo de carbonização ao longo de milhões de anos se espalham pela área.  De verdade, esperávamos um pouco mais dessa atração já que a trilha é bem curta e fica restrita a uma pequena área do bosque, mas valeu bastante pelo conhecimento adquirido e o aprendizado que tivemos.

Testemunhas oculares das mudanças climáticas do planeta, a sensação de finitude e insignificância que sentimos ao nos depararmos com seres que lá estão desde antes da história da humanidade — e que, provavelmente, por lá remanescerão até quando a vida dos descendentes de nossos descendentes terminar — foi, definitivamente, uma clara lição de humildade. Uma simples mas inequívoca demonstração da ínfima dimensão que o ser humano tem diante da natureza mas que insistimos em negar diante de uma voluntária e prepotente cegueira.

Ainda no sul do Equador, nos dirigimos um pouco mais para o leste e conhecemos uma das pérolas escondidas do país. Depois de percorrermos cerca de 200km subindo e descendo estradas sinuosas, chegamos a cidade serrana de Zaruma, que viveu seu apogeu no século XVIII e XIX por conta da extração de ouro e, depois, pela produção de café.  Além da arquitetura muito peculiar e de seus aspectos históricos muito bem preservados, Zaruma possui um atrativo que fez-nos apaixonar por ela imediatamente: a gastronomia.

A deliciosa comida serrana do país parece ter mais gosto lá, assim como o saborosíssimo café da região, cujo aroma paira no ar em qualquer esquina ou rua dessa cidade. Sem dúvida a culinária de Zaruma é algo que beira a anormalidade. Uma comida simples, caseira mas de sabor único. Principalmente na Cantina Uno, onde o Norman e sua esposa nos prepararam a comida mais deliciosa que experimentamos no Equador e, também, nos serviram o café de produção própria que foi o mais saboroso de todo o país.

Um passeio pelo mercado central e pelas feiras da cidade nos deu uma noção da fertilidade do solo da região e da farta, diversificada e rica a produção agrícola local.  Zaruma, inclusive, é tida como o local onde surgiu o “tigrillo”, um prato feito a base de banana, ovos, queijo e cebola — este último totalmente dispensável — que é praticamente uma instituição no Equador.

A gastronomia local também oferece outros atrativos  que tivemos a felicidade de experimentar como os bollones, a morcilla, as humitas, o arroz com frijoles e outros que, infelizmente, tivemos que declinar para não explodirmos.  Certamente em nossa próxima passagem pelo país, em direção ao sul do continente, pararemos lá para conhecer o arroz mote, bolón de maní, de carne e chicharrón, a sopa de arvejas con cuero, a gallina criolla, os tamales locais e a fritada.

De Zaruma fomos à província de Loja, onde se localizam Vilcabamba e o Parque Podocarpus. Na capital, que leva o mesmo nome da província, acabamos ficando pouco tempo já que é uma cidade de maior porte e estávamos em busca de locais bem mais tranquilos. Adquirimos uma boa quantidade do famoso e local queijo lojano, experimentamos umas cervejas artesanalmente feitas lá e partimos para Vilcabamba, no chamado “vale da longevidade”.

A cidade foi por muito tempo usada como local de repouso e férias das famílias nobres incaicas e mais recentemente tida como a cidade com população mais longeva no mundo.  Por conta das características de seu clima e da qualidade de vida de seus habitantes, Vilcabamba é tida como a capital dos centenários.

É, também, o centro hippie do país e poderia ser comparada a cidades como São Tomé das Letras e Vila de São Jorge no Brasil.  Cheia de estrangeiros que se estabeleceram por lá, todos os atrativos da cidade giram em torno de uma cultura própria, sempre ligada a terapias e filosofias alternativas….

Lá passamos um dos domingos mais memoráveis de nossa viagem. Era um final de tarde e o céu estava tomado por uma coloração rosada quando começamos a escutar uma música muito agradável vinda dos fundos do local onde estávamos acampados.  Um artista local começou a fazer um primor de show para um grupo de americanos hospedados na pousada exatamente atrás de nosso camping. 

Esse guitarrista tocou por cerca de duas horas só músicas boas e performou uns solos que nos hipnotizaram. Só tirávamos os olhos da sua apresentação quando tínhamos que repor o vinho de nossas taças que insistiam em desaparecer a cada 15 ou 20 minutos. 

Foi praticamente um pocket show.  Uma pena que não há como reproduzir aqui o som dele mas conseguimos fazer uns vídeos e, vez ou outra, vamos ao nosso instagram para assistirmos alguns pedacinhos da apresentação e nos recordarmos desse anoitecer memorável (os vídeos estão nos destaques do Equador). 

Mas, além do clima, do vinho e da música boa, aproveitamos nossa estadia em Vilcabamba para também fazermos umas trilhas pela região. Fomos até o alto do Cerro Mandango e entramos nos densos e frondosos bosques de lá para alguns trekkings.  Ainda conseguimos assistir uma apresentação dos famosos cavalos de passo que fazia parte de um festival que ocorria na cidade. 

Quando deixamos Vilcabamba, depois de alguns dias, paramos no Podocarpus para fazermos uma trilha e um gélido camping selvagem nesse parque nacional.

O Podocarpus é uma reserva de “megadiversidade” no Equador que fica entre as cidades de Vilcabamba e Loja. Um lugar onde espécies únicas da fauna e flora residem e de onde, do mirante de uma de suas fantásticas trilhas, é possível admirar a belíssima vista e ter uma noção da exuberância da natureza do país.  O parque, de tamanho relativamente pequeno para padrões nacionais e internacionais, representa a essência do que é o Equador: uma efervescência intensa e ilimitada de vida congregada em um pequeno território.

Seguimos, após, para a província de Azuay cuja capital é a histórica e belíssima Cuenca. No caminho para lá passamos rapidamente na bucólica e pitoresca Saraguro para conhecer essa cidade tão falada entre a população do sul do país.  Seus habitantes ainda se vestem como seus ancestrais e ao chegarmos tivemos a sorte de presenciar o final de um casamento, no qual todos os presentes, noivos, pais, padrinhos e convidados usavam suas típicas vestimentas negras.

Nossa passagem por Cuenca foi, como diz-se em espanhol, “una bendicion”.   A cidade tem um clima muito gostoso e é, apesar de ser a terceira maior do país, bem pacata.  Repleta de atividades culturais e artísticas, a cidade está dividida em um simpático e bem preservado centro histórico e uma área mais moderna que é igualmente agradável.

Boa parte da história do Equador, que nos era praticamente desconhecida, foi aprendida nesta cidade e o museu Pumapungo foi um dos principais atores nesse processo. Neste fantástico espaço há exposições interessantíssimas e por horas ficamos passeando em suas galerias.  Conhecemos as características das diversas etnias originárias do país — que foram totalmente dominadas pelos incas durante seu período de expansão —, muitos fatos importantes ocorridos no processo colonialista e independentista e, ainda, visitamos algumas das escavações da antiga Tomebamba, a capital setentrional do império Inca destruída na guerra civil entre Atahualpa e Huáscar e sobre cujas ruinas os espanhóis construíram a atual cidade de Cuenca. 

A cidade é repleta de catedrais, cafés e restaurantes que valem a pena ser visitados.  Muitos deles nos foram indicados e recomendados por nossa simpatissíssima anfitriã.  A Mirian, que é dona do local onde ficamos em Cuenca, nos contou muitas coisas sobre a cidade e, além disso, nos deu várias dicas sobre o Equador.

Apesar de muitíssimo interessante, nossos planos não eram muito tempo na cidade mas estávamos lá justo num momento de grande instabilidade do país e quando alguns protestos eclodiram.

Estávamos em Cuenca já fazia algum tempo e no dia seguinte à comemoração do aniversário do Eduardo – num delicioso jantar no restaurante El Mercato – partimos para o Parque Cajas, nas cercanias da cidade.  Fomos explorar os caminhos e vistas maravilhosas do parque só que quando saímos de lá, após uma trilha longa de cerca de 6 horas, fomos informados pelo guarda-parque que as estradas do país estavam bloqueadas e as entradas nas cidades impedidas por grupos contrários a medidas econômicas tomadas pelo presidente do país na véspera.  

Ficamos uns três dias “presos” nos arredores do parque em um estacionamento de uma estalagem até que pudemos aproveitar uma folga nos protestos e retornar a Cuenca.

Lá ficamos mais algum tempo por lá até que as coisas se acalmassem. Durante esse período: fomos ao cinema muitas vezes para assistir a praticamente todos os filmes que estavam em cartaz, em uma série de restaurantes que funcionavam apesar dos protestos, passávamos tardes nas praças lendo livros e, ainda, nos matricularmos em uma academia que frequentávamos todas as manhãs.  Quando os tumultos acabaram, despedimo-nos de nossa querida anfitriã com praticamente uma lista de receitas e partimos em direção a costa.  Após descermos a serra, atravessarmos Guayaquil e chegamos a Salinas, no litoral sul do Equador.

Nosso plano era seguir pela costa para o norte e aproveitar todo o litoral equatoriano para matar nossa vontade de praia, mas o tempo estava muito feio e sem previsão alguma de melhora nas semanas seguintes.  Apesar de termos acabado de descer da serra, alteramos nosso roteiro e decidimos subi-la de volta para seguir para o norte do Equador pela rota dos vulcões.  Retornaríamos a costa mais tarde, quando o tempo estivesse mais firme.

Nesse caminho paramos em Guayaquil e fomos aproveitar as atrações da cidade. Como era fim de semana, conhecemos o agito boêmio do bairro de Las Peñas, onde passamos uma noite bem divertida e gostosa experimentando bebidas e comidas guayaquileñas nos diversos bares daquele pitoresco bairro que nos lembrou muito o Rio de Janeiro.

Na manhã seguinte fomos passear pelo Malecon2000, uma enorme área púbica ao longo da orla pluvial da cidade, onde se concentram diversas obras de arte e esculturas — inclusive a em homenagem ao encontro dos libertadores americanos San Martin e Bolívar na cidade — e muitas construções históricas.  Por ser uma cidade portuária, Guayaquil é uma cidade que sempre teve muita pujança econômica e ao longo dos anos foi incorporando a sua arquitetura um conjunto arquitetônico muito rico.  Principalmente em meados do século passado foram construídos incontáveis prédios e edifícios de arquitetura clássica que nos chamaram bastante a atenção.

Antes de deixarmos a cidade, fomos experimentar uma instituição da cidade que é o “caranguejo guayaquileño”.  Claro que a comida costeira é super tradicional mas sempre que alguém se referia à cidade mencionava os caranguejos de lá.  Então, como não poderia deixar de ser, fomos tirar a prova dos nove. 

Jantamos em um tradicional restaurante de frutos do mar chamado “La Pata Gorda”, onde ao longo de algumas horas compartilhamos alguns pratos para podermos experimentar de tudo, a saber: viche de mariscos, empachadito de cangrejos, caranguejo e chopsue de caranguejo. Acompanhados de uma jarra de sangria, devoramos tudo e, ao final, ficamos muito satisfeitos.  Depois de tanta comida chegou a hora da literalmente dolorosa conta. Claro que já sabíamos que iríamos estourar o orçamento mas valeu a pena cada dólar gasto naquela noite. 

Subimos a serra com o modo “econômico” completamente ligado para compensarmos a estripulia da noite anterior.  De volta às montanhas do Equador, chegamos a cidade de Riobamba, de onde partiríamos para nossa trilha pelo famoso vulcão Chimborazo, o ponto do planeta mais próximo ao sol.

Passamos uma noite chuvosa e fria num posto de gasolina muito bem estruturado na entrada da cidade e na manhã do dia seguinte partimos cedo para o parque. A estrada até o vulcão era linda e o sol brilhava em meio ao céu azul mas, à medida em que fomos nos aproximando do nosso destino, o frio e as nuvens começaram a tomar conta do cenário.  No estacionamento, quando botamos os pés para fora do carro para ir à guarita nos registrar, tivemos que voltar correndo.  O frio era tão intenso que tivemos que pegar nossos casacos, gorros e luvas.

Começamos a subir e foi difícil nos manter no rumo por conta da neblina. Não fossem as pedras para nos dar referências pelo caminho teríamos certamente parado por diversas vezes. No meio dessa neblina e desse frio todo, quando tínhamos alguma visibilidade, nos deparamos com diversos grupos de vicunhas selvagens às margens do caminho. Curva após curva íamos subindo vagarosamente até chegarmos à base.

Lá ficamos aguardando o tempo melhorar para enxergamos o pico e iniciar nossa trilha. Apesar da paciência não tivemos muita sorte já que o tempo não nos ajudou mas, ao menos, conseguimos uma pequena abertura para fazermos a trilha até a laguna Condor Cocha, que fica a 5.100mts de altitude.  No caminho pudemos contemplar diversas placas em homenagens a montanhistas falecidos na exploração do vulcão, assim como um marco à visita que Simon Bolívar fez ao Chimborazo e que o inspirou a fazer o emocionante poema intitulado “Mi Delirio sobre el Chimborazo”.

Chegamos ao fim de nossa trilha e a lagoa era, na verdade, um pequeno lago de cor barrenta que estava envolta em muita neve.  Não podíamos seguir adiante por conta da neblina então matamos o tempo escrevendo nossos nomes com pedras sobre a neve.  Quando o tempo piorou descemos à base e deixamos o vulcão em direção a Baños de Água Santa, uma cidade mais ao norte. 

A cidade de Baños é muito simpática e o caminho até lá lindo.  Localizada praticamente no fundo de um vale, a estrada vai descendo entre fendas no meio de montanhas enormes até que se chega a essa cidade bastante movimentada pelo turismo local e internacional.

Com diversos atrativos ligados à natureza, o principal deles são as piscinas de águas vulcânicas que nós não curtimos muito. As piscinas estavam sempre cheias e sua coloração não era das mais límpidas. Mesmo assim aproveitamos bastante a cidade e fizemos alguns passeios locais como a ida ao Paillon del Diablo, o bondinho sobre o Manto de la Novia, a Casa da Árvore e seu tradicional balanço do fim do mundo, assim como experimentamos diversas delicias culinárias produzidas na cidade como a colada morada e as empanadas e tortillas do El Buen Café e os bolos de cenoura, banana e arândalos do Honey Café.

Em princípio de lá seguiríamos para o norte mas de onde estávamos, seguindo alguns quilômetros para o leste entraríamos na parte oriental do Equador, que é abarcada em sua quase totalidade pela floresta amazônica. Com uma ajuda muita proveitosa do proprietário do hotel em frente aonde estávamos acampados e as dicas dadas por um jovem alemão que conhecemos na finca agroecológica em Arenillas, definimos nosso novo roteiro e adentramos na região amazônica.

Pegamos a rodovia E30 e passamos pela rota das cachoeiras até cruzarmos a fronteira da província de Tungurahua com a de Pastaza.  Via-se nitidamente a mudança do relevo e da vegetação, que passaram a ser dominadas por montanhas recobertas um verde intenso da selva e rios que se esgueiravam por vales e sumiam em meio à floresta. A selva já nos envolvia completamente e as camadas de roupas que usávamos sobre o corpo foram sendo tiradas à medida em que entrávamos mais para o oriente.

Sentíamos literalmente na pele o clima amazônico. O frio da serra havia dado lugar ao calor úmido e nossos corpos melavam.  Quando chegamos em Puyo caminhamos pelo parque da cidade que é gigante e possui diversos atrativos. Há um caminho pelo parque que vai margeando o rio e adentrando na selva.  Percorremos esse caminho até o final e ficamos encantados pela exuberância da mata, que oferecia diversas variedades de plantas e aves, e pela rusticidade das construções do parque, que aproveitavam todos os recursos naturais da própria selva.

No retorno à cidade ficamos apreciando a produção dos artesãos locais, aprendendo um pouco sobre os grupos indígenas que habitam aquela região e, ainda, experimentamos o “volquetero” um prato típico de Puyo que é quase uma versão amazônica do ceviche.  Feito a base de peixe (ou atum), chifles, tomate, choclo e cebola — este último item totalmente dispensável —, o prato é fartíssimo e delicioso.

Naquela noite dormimos dentro do carro em uma das ruas calmas da cidade e no dia seguinte fomos a dois locais diferentes: o “passeo de los monos” e a “cacao farm”.

O primeiro trata-se de um orfanato de animais selvagens gerido por um suíço que há 14 anos resolveu mudar sua vida e doar-se à causa animal. Ele recebe animais que foram recuperados pelas autoridades junto a caçadores e traficantes e dá o tratamento necessário até que estejam aptos à regressar a selva. Os macacos de diversas espécies são a principal atração mas há também papagaios, guaxinins, tartarugas e até um mesmo um leopardo.

A segunda atração foi uma fazenda de cacau onde acompanhamos e realizamos o processo produtivo de chocolate artesanal.  Foi muito interessante aprender as etapas do processo. Separamos, tostamos, descascamos e moemos as sementes e, após extrairmos o óleo, demos formato a nossa primeira barra 100% cacau. Bem amarga, mas muito cheirosa e saborosa, essa barra de cerca de 500g de chocolate puro nos acompanhou por muito tempo e fomos consumindo-a aos poucos para não acabar logo — os brigadeiros ficaram especialmente deliciosos com ela.

De Puyo adentramos mais ainda na região amazônica e pela Ruta Panamericana fomos até Tena, na província de Napo. De lá rumaríamos seguiríamos até a entrada norte do Parque Cayambe Cocha, na província de Sucumbios, onde visitaríamos a cascata de San Rafael e seguiríamos para o oeste explorando os outros atrativos do parque até chegarmos em Quito. 

Ocorre que, depois de mais de 150km selva adentro, subindo e descendo montanhas incríveis numa estrada que chega a se perder em meio à imensidão da floresta, a ponte que ligava a rodovia à cidade de Baesa estava interrompida.  Uma carreta havia danificado a estrutura da ponte por conta de seu excesso de peso, e tivemos que abortar nossos planos.

O outro caminho possível seria um desvio de mais 350km e por uma estrada que ninguém recomendava, então, fomos obrigados a retornar a Tena para passar a noite lá para depois retornar a Baños e subir pela rodovia E35 até chegarmos a Quito pela rota dos vulcões.

Nesse “pequeno” retorno de 500km passamos praticamente o dia todo na estrada.  Quando chegamos na altura de Latacunga pegamos um desvio para chegarmos até o vulcão Quilotoa. 

Mais uma vez a estrada nos encantou. Saímos do meio da selva amazônica e chegamos até a cratera do vulcão passando por paisagens dignas de cenários de filmes. 

A vila de Quilotoa nos impressionou.  O local é um lugar no topo da cratera vulcânica onde a comunidade formada por indígenas construiu uma estrutura super interessante para receber os viajantes e turistas.  A vila possui diversos hostals e restaurantes que oferecem um excelente nível de conforto e são construídas num estilo padronizado e completamente integrado à paisagem, sem quebrar a harmonia do local com a natureza.

Como havíamos chegado no fim de tarde, só iríamos fazer a caminhada pelo entorno da cratera no dia seguinte e ficamos aproveitando a simpática vila no entardecer. Só que subitamente uma neblina intensa chegou já não conseguíamos ver absolutamente nada. Entramos em um dos restaurantes e pedimos um canelazo para nos aquecer.  Depois fomos correndo para o carro para nos abrigar do tempo e do frio. Ficamos lá dentro preparando pizzas com as tortillas que tínhamos e assistimos a um filme antes de cairmos no sono.

No dia seguinte, impressionantemente, o clima era completamente distinto do anterior. Um céu azul e um sol que brilhava ardentemente davam à manhã um colorido todo especial. A lagoa Quilotoa, que fica dentro da cratera, estava refletindo um lindíssimo verde por conta da luminosidade do sol e ainda bem cedinho começamos a nossa trilha.  Saímos com casacos, gorros e luvas para nos proteger do frio e do vento mas à medida que fomos caminhando fomos tirando cada camada de roupa que tínhamos.  Já no final dos 10km do circuito o tempo voltou a fechar e recolocamos todas nossas roupas de volta. 

Caminhar no entorno de uma cratera de um vulcão, ainda mais com uma lagoa linda em seu interior, foi sensacional e as paisagens dessa natureza ao mesmo tempo hostil e bela eram muito contemplativas.

Ao final do dia, exaustos da caminhada, entramos no carro e seguimos o caminho de volta para pegarmos à rodovia até o Cotopaxi, o terceiro vulcão a ser explorado por nós no Equador. Desta vez dormimos no estacionamento de uma pousada a poucos quilômetros da entrada do parque onde fica o vulcão para aproveitamos a estrutura do local.  Tomamos um demorado e delicioso banho quente e fomos dormir.

Partimos cedo para o parque apesar do tempo não estar dos melhores. Chovia bem mas, como o dono da pousada nos disse que às vezes dentro da área do parque o tempo poderia estar completamente diferente, decidimos tentar a sorte mesmo assim.  O clima era outro, mas não tão diferente. Não chovia mas as nuvens encobriam praticamente tudo e havia apenas alguns buracos em que víamos o azul do céu. O cume do vulcão também estava escondido pelas nuvens e quando chegamos à base da trilha, após percorrermos por uma hora boa parte da extensão do parque, começamos a subir sob um fortíssimo vento. Havia duas trilhas possíveis: uma mais fácil que fazia um zig-zag por uma das encostas e outra mais difícil, numa linha reta montanha acima apelidada de “rompe coração”.

Durante alguns instantes da caminhada as nuvens deram um refresco e conseguimos ter uma visibilidade parcial do cume. Tiramos algumas fotos próximos ao primeiro refúgio mas foi só. Era apenas um espasmo de tempo bom que logo se acabou. Ao descermos e entrarmos no carro o tempo ficou mais feio e pegamos bastante chuva desde o sopé do vulcão até Quito.

Em Quito o plano era ficarmos alguns dias até a data em que iríamos voar de volta para o Brasil para um compromisso familiar que não poderíamos deixar de comparecer. Pelas contas iríamos retornar do Brasil na véspera de expirar a permissão de permanência do Roots em território equatoriano e, então, para evitar riscos fomos direto à Aduana solicitar a prorrogação do prazo. 

A burocracia era muita e ninguém no órgão nos deu certeza de que iríamos conseguir a prorrogação antes de viajarmos, então tomamos a decisão de percorrer naquele mesmo dia os mais de 300km que faltavam para a fronteira com a Colombia para sairmos e reentrarmos no país.  Era uma solução idiota, mas a única que nos garantia tranquilidade de estarmos em conformidade com as leis equatorianas ao retornarmos.

Enfim, lá fomos nós em nossa odisseia até a Colombia. Era uma 5ª feira véspera de feriado e pegamos um trânsito incrível.  Passamos por Otavalo e Ibarra até chegarmos a Tulcan na divisa com o paíz vizinho, numa viagem que deve ter durado umas 5horas.  Dormimos no carro e no dia seguinte fizemos o processo de saída e entrada e retornamos para Quito.

Paramos em Otávalo no caminho de volta para experimentar a deliciosa culinária de lá e conhecermos a feira de artesanatos.

Quando chegamos em Quito ainda tivemos tempo de conhecer a catedral, alguns museus e o belíssimo centro histórico da cidade. Passear pelas antiquíssimas ruas da cidade foi muito agradável e a cada local que adentrávamos víamos a história do país muito bem representada e preservada.  Na América do Sul ainda não havíamos visto um “casco histórico” tão grande e tão bem preservado como o de Quito.

Após alguns dias de faxina e organização no carro, partimos de Quito em direção ao Brasil, deixando o Roots num camping que fica muito perto do aeroporto.  Quando retornássemos desse bate e volta ao nosso país natal, o pegaríamos de volta e seguiríamos para a costa do pacífico, para fazer a única região que havia ficado pendente no Equador.

(continua no próximo post)

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