Os Tesouros do Peru (parte 2)

Os Tesouros do Peru (parte 2)

Deixamos Lima e seguimos viagem pela Ruta Panamericana Norte até chegarmos a Trujillo, quando então pegamos um desvio e seguimos em direção a Huanchaco.

Um dos paraísos do surf no país, a cidade é simples e bem organizada. Ali em todos os cantos encontramos viajantes com pranchas no teto dos carros, escolinhas, pousadas, restaurantes etc… tudo voltado para a prática do esporte. O surf faz parte da história da cidade desde a era pré-incaica, quando os Moches deslizavam sobre as ondas usando os famosos “cabalitos de totora”, uma espécie de prancha primitiva construída com palhas de uma planta muito comum na região e que vem a ser a mesma que suporta as ilhas flutuantes no lago Titicaca. 

Ficamos uma semana na cidade aguardando a chegada do sol que só deu as caras em poucos momentos e, mesmo assim, entre nuvens. Como o mar naquela região é bastante frio e o sol insistia em não aparecer, não conseguimos aproveitar a praia como queríamos. O Eduardo ainda ia dar suas corridas pelas manhãs na orla mas era só isso que conseguimos aproveitar do litoral nessa nossa primeira tentativa frustrada de busca pelo sol.

Fomos até a vizinha Chicama, que é outro centro de surf no Peru por ter a esquerda mais longa do mundo, mas tampouco lá tivemos sucesso. O sol realmente não sorriu para nós naqueles dias.  Se fossemos praticantes de surf teríamos condições de aproveitar melhor esse pedaço do litoral mas como não era o nosso caso resolvemos mudar de estratégia.

Pesquisamos as possibilidades por ali por perto decidimos subir para as montanhas de Ancash.  Lá no alto o tempo estava firme e poderíamos aproveitar para explorar as belezas da região antes de continuarmos nossa viagem pela costa peruana.  Além disso conheceríamos um dos atrativos mais interessantes do Peru: o Parque Nacional Huascarán.

Foi um desvio de cerca de 350km pois tivemos que descer para o sul, até a cidade de Santa, para começarmos a subir.  Saímos do nível do mar e chegamos a uma altitude de aproximadamente 3mil metros, percorrendo boa parte do caminho por uma das estradas mais incríveis que conhecemos no Peru.

A estrada do Cânion del Pato é constituída por uma única e estreita faixa de rolagem que se esgueira por desfiladeiros na convergência entre as cordilheiras branca e negra.  Ao longo do caminho há alguns acostamentos para que veículos possam aguardar a passagem de outros e continuarem viagem mas o maior risco de fazer essa estrada é encontrar um motorista peruano vindo em sentido oposto. Como eles estão longe de serem os mais cautelosos ao volante, um encontro numa das sinuosas curvas da estrada pode ser uma surpresa muito desagradável.

Ao longo dessa estrada há, também, uma infinidade de túneis construídos diretamente sob as rochas. Muitos deles são sequenciais e se não erramos a contagem foram 38 no total.  Passamos por eles torcendo para que não encontrássemos ninguém em sentindo contrário mas em um deles tivemos que recuar, dando marcha a ré mais da metade de sua extensão enquanto um caminhão e um motorhome vinham descendo.  A experiência de viajar por quilômetros à beira de precipícios foi incrível mas não recomendamos em hipótese alguma fazer essa estrada à noite. Existem algumas reportagens que denominam esta como sendo uma das estradas mais perigosas do mundo e os acidentes parecem não ser tão raros.

Mas enfim, depois da incrível subida chegamos a cidade de Caraz, porta de entrada para o Parque Huascarán.  Era meio da tarde ainda e ao invés de aguardar o dia seguinte resolvemos ir direto até a Laguna Paron para fazermos nosso primeiro camping selvagem no parque.  O lago fica a cerca de 30km da cidade sendo que mais da metade do caminho é feito por uma estrada de terra precária que foi nos levando até uma altitude de 4.200metros.  Lá no alto, cercada por picos nevados, repousa a lagoa de águas inacreditavelmente azuis.

A visão que tivemos ao chegar foi, e é, inesquecível. Nem mesmo com nossas mentes no esplendor da criatividade conseguiríamos vislumbrar algo tão perfeitamente construído pela natureza. A cor da água era inacreditável e indescritível.  Como se costuma dizer “foi de sentar e chorar”.

Naquele esplendor de lugar acompanhamos o sol se despedir e transformar o azul do céu num tom cor-de-rosa só interrompido pelo branco das neves que refletiam ainda os últimos raios de sol.  A noite surgiu e milhares de estrelas cintilavam no céu límpido enquanto, totalmente encasacados por conta do frio, preparávamos o jantar e matávamos umas garrafas de vinho.  Durante a madrugada acordamos algumas vezes ouvindo estrondos e imaginando que poderiam ser trovoadas mas no dia seguinte viemos a descobrir que eram barulhos de placas de neve se descolando e desabando do alto das montanhas em pequenas avalanches.

Na manhã seguinte, após tomarmos nosso café da manhã à beira daquele lago lindíssimo, partimos para algumas caminhadas ao redor da lagoa. Contornamos parte de sua extensão por um caminho insculpido na montanha e depois subimos pelas rochas até o mirante.  Foram caminhadas curtas mas que exigiram um certo esforço por conta da altitude e do ar rarefeito.

Feitas as caminhadas, decidimos partir.  A essa altura já haviam muitos visitantes no local e o estacionamento onde dormimos acompanhados apenas de um furgão de viajantes chilenos estava repleto de vans. Os turistas costumam sair em passeios diários que partem de Huaraz e Caraz e chegam por volta das 11hs, lotando o lugar e acabando com aquele silêncio delicioso e harmônico que havíamos desfrutados até então. 

Descemos para nos estabelecermos no camping Guadalupe, que fica a poucos quilômetros antes de Caraz.  Um lugar construído por um simpático peruano que oferece uma excelente estrutura para os viajantes overlanders. Naquele gramado, ao pé das montanhas e rodeado de verde, ficamos um tempo botando nossas vidas em dia, organizando fotos, atualizando nossas planilhas, escrevendo e fazendo uma bela e profunda limpeza no Roots. Retiramos os bancos e desmontamos algumas partes do carro para limpá-las e descobrimos pó em lugares que jamais imaginávamos.  Eram vestígios de mais de um ano de viagem que, infelizmente, precisavam precisavam ser removidos.  

Lá ficamos aguardando também a chegada de nossos amigos de São Paulo, Diego e Cassandra.  No Brasil, quando estávamos em Fortaleza, cruzamos todo o sertão nordestino em dois dias de viagem para fazer uma surpresa e encontrá-los em Maceió, onde passavam uns dias. Agora era a vez deles cruzarem meio continente e nos surpreenderem, curtindo uns dias conosco nas montanhas e na capital do país.   

Descemos para Lima na véspera e os pegamos no aeroporto, retornando ao camping em Caraz.  Fomos os quatro no carro serra acima numa viagem que durou cerca de 7horas.  Dessa vez fizemos a subida para Caraz pela Ruta 16, menos desafiante e mais tranquila que o Cânion del Pato, e paramos apenas para fazer um rápido e delicioso almoço ao ar livre à beira de uma lagoa em Conococha.  Estávamos cercados pelo dourado da vegetação daquele platô e pelas montanhas nevadas do parque.

Chegamos ao camping Guadalupe já à noite e passamos um tempo por lá para eles irem se adaptando e não sentirem tanto os efeitos da altitude.  Visitamos juntos a cidade de Caraz e fizemos um belo churrasco para celebrarmos o reencontro.

Quando partimos para explorar outra parte do Parque Huascarán, subimos algumas dezenas de quilômetros numa estrada de terra a partir de Yungai. Alcançávamos a Laguna Llanganuco, mais um lago com águas incrivelmente azuis num local onde a natureza foi muito generosa.

Passamos o dia e a noite no entorno da lagoa. Apreciamos a paisagem do local, jantamos e fizemos uma fogueira para nos aquecer do frio da noite.  Ficamos ali batendo papo e matando umas garrafas de vinho acompanhando o surgir da lua cheia.  Por detrás do paredão ela ia subindo pouco a pouco até que, se desmascarando por completo, iluminou o vale onde estávamos quase como se fosse dia.  Ela reluzia tão forte no céu e seu brilho era tanto que nossas sombras eram refletidas no chão de forma muito nítida. Foi uma noite deliciosa, mas, também, bastante fria.  O Diego e a Cassandra não estavam tão acostumados às baixas temperaturas quanto nós e sofreram bastante durante a madrugada.

A Laguna LLanganuco é a base a partir da qual se faz a trilha até a Laguna 69.  Nossos planos eram fazê-la logo cedo mas demoramos para acordar e acabamos saindo para a caminhada por volta das 11hs. Apesar da altitude, o dia estava belíssimo e o sol nos mantinha aquecidos. Não esperávamos um esforço tão grande para chegarmos ao nosso destino. Era um caminho de 8km de extensão que nos tomou mais de 3 horas numa subida interminável.

Chegamos à Laguna 69 bem cansados mas nos deparamos com mais um dos tesouros escondidos do Peru.  Um lago exuberante de águas azuis cristalinas a 4.300mts de altitude que contrastava com os picos nevados de seu entorno.  Aquele conjunto, de natureza pura associado ao fim de uma trilha cansativa formava um quadro perfeito. O silêncio, o céu, a água, as montanhas, a sensação de ter completado o penoso percurso…

Ficamos por algum tempo deitados sobre as pedras contemplando aquela beleza e aproveitando o sol quase como se fossemos lagartos.  O Diego e Eduardo ainda mergulharam suas cabeças nas águas do lago para se refrescarem mas rapidamente a tiraram pois a temperatura, obviamente, era congelante.

O caminho para nossa descida era longo e precisávamos partir para não fazer o percurso na sombra que, junto com o vento e o frio da altitude, transformariam o retorno em um calvário.  Chegamos pouco antes do anoitecer e rapidamente arrumamos nossas coisas para descemos de volta para o camping.  Resolvemos não passar mais uma noite lá para evitarmos que nossos amigos sofressem outra noite com o frio.

Depois de mais um tempo no camping, regressamos uma vez mais a Lima. Eles retornariam ao Brasil dentro de alguns dias e nos encarregamos de apresentar-lhes a cidade e as delícias gastronômicas da capital.

Quando eles partiram pegamos novamente a estrada. Dessa vez fizemos dois dias inteiros pela Ruta Panamericana até chegarmos ao norte do país, no estado de Piúra, onde as cidades praianas e os frutos do mar são as principais atrações. Foram quase 1.100km até chegamos ao primeiro destino, Lobitos. 

A área dessa cidade já abrigou uma vila de pescadores, depois virou um campo de petróleo e com a nacionalização da exploração virou uma base militar até ser abandonada em meados dos anos 90.  De lá pra cá os pescadores voltaram e os sufistas surgiram, aproveitando as boas ondas da região e fazendo dela mais um dos points do esporte no Peru.

Em alguns locais ela concentra uma série de prédios e casas abandonadas dando um ar de cidade-cemitério, mas em outros pontos a cidade conta com diversas casas de hospedagem entre as vilas de pescadores e o píer.  Aliás, nesse píer todos os dias os pescadores chegam em seus barcos com peixes e frutos do mar e os vendem diretamente a preços bem módicos.

Nós nos estabelecemos na simpática “Cabañas do Neto”, uma pousada praticamente a beira mar que tem uma área específica para receber viajantes de carro.  Ficamos lá uma semana inteira só curtindo o calor, o sol e o clima de praia que há tanto buscávamos.

Fizemos nossa rotina a mais saudável possível. Entre corridas, exercícios matinais, comida leve, mergulhos, longas tardes de leituras e lindos poentes passamos esse tempo lá em uma intensa paz. Desligamo-nos de tudo e simplesmente curtimos muito aquela primeira semana de praia em meses.

Poderíamos ter ficado muito mais tempo naquele ambiente gostoso mas depois de uma semana precisávamos explorar mais o litoral norte antes que nossa autorização de permanência expirasse.  Seguimos então para uma outra praia, a de Los Órganos, na província vizinha de Tumbes.

Recomendação da Ana, filha do Moisés que conhecemos em Lima, ficamos por lá mais alguns dias e aproveitamos a praia de areias brancas por onde as tartarugas marinhas abundam e as baleias ocasionalmente dão o ar de sua graça. Apesar de bem mais desenvolvida que Lobitos, Los Órganos mantém a característica de uma praia tranquila.

Poderíamos ter ficado com o Roots na orla mas optamos por ficar estacionados nos fundos de um hostal que se localiza no alto das dunas. Ali poderíamos usar toda a estrutura da área comum, inclusive a cozinha e a enorme e deliciosa varanda de onde podíamos apreciar a vista de toda a praia.

Na tranquilidade daquele local demos prosseguimento a nossa rotina de caminhadas, exercícios matinais e comida leve. Comparado com a serra e o clima de montanha, o ambiente de praia é imensamente mais convidativo aos hábitos de vida saudável e assim nos mantivemos por toda nossa temperada no litoral norte peruano. 

Nos permitimos ficar por ali alguns dias antes de seguirmos para outra praia.  Nosso destino seguinte seria Mâncora mas decepcionados com o caos da cidade e o ambiente extremamente turístico, onde a cada 30metros alguém nos abordava na rua para nos oferecer algo, não ficamos nem uma hora por lá.  Continuamos pelo litoral até chegarmos ao balneário de Punta Sal.

O ambiente naquela cidade era exatamente o oposto de Mâncora, pequena, bem organizada e com comércio ambulante proibido.  Demos uma volta pela cidade para reconhecimento da área e fomos direto à praia.  O dia estava um pouco nublado mas mesmo assim aproveitamos.  Num bar-restaurante à beira da praia comemos um delicioso ceviche e tomamos uns chilcanos, uma espécie de caipirinha peruana feita à base de pisco.  Ficamos até o anoitecer lá e decidimos dormir na tranquila rua detrás do restaurante e usamos a sua estrutura que o proprietário gentilmente nos ofereceu.

O dia seguinte chegou com um céu azul e o sol brilhando intensamente.  A praia mostrou-se ainda mais interessante e passamos praticamente todo o dia numa tenda que alugamos e ficamos só observando o tempo passar na companhia de nossos livros.  Foi um dia esplendoroso mas o que nos marcou mesmo naquele dia foi o espetáculo que acompanhamos no seu final.

Com o sol já quase se escondendo no horizonte avistamos um grupo de baleias que faziam acrobacias saltando do mar. Foi maravilhoso ver aqueles cetáceos gigantescos brincando no mar em saltos majestosos como se estivessem despedindo do sol.  Depois do show inesperado, voltamos ao Pirâmide para tomarmos mais uns chilcanos e celebrarmos aquele dia fantástico. 

Ficamos ali batendo papo longo com um casal equatoriano que nos deu várias dicas do próximo país a ser visitado por nós.  Fomos ao Roots para preparar nosso jantar na pacata rua do balneário que, naquele domingo à noite, já estava praticamente deserto.

Com o dia seguinte amanhecendo nublado, resolvemos mudar de praia e fomos até Zorritos. Tínhamos referências excelentes de um local à beira-mar nessa cidade onde poderíamos ficar bem instalados. O camping Swiss Wassi fica a poucos quilômetros antes de chegarmos ao centro da cidade e chegando lá ficamos maravilhados com a estrutura oferecida. Trata-se de um terreno de propriedade de um casal suíço que preparou o quintal de sua casa de praia para receber viajantes overlanders. 

Tudo ali é bem espartano mas de muito bom gosto e em meio a árvores, espreguiçadeiras, redes, toldos e pergolados, poderíamos nos estabelecer literalmente com os pés na areia.  Não tivemos dúvidas que ficaríamos ali um bom tempo e fomos até a cidade para fazer umas compras e nos abastecer para os próximos dias.

No camping ficamos à sombra de uma das árvores e dali podíamos apreciar a vista do mar a todo o momento. Acordávamos, descansávamos, fazíamos nossas refeições e dormíamos vendo e ouvindo o mar e suas ondas. 

Um par de cachorros extremamente brincalhões nos fez companhia todos os dias e o tempo todo. Em nossas caminhadas, deitados nas espreguiçadeiras ou nas redes e, naturalmente, durante as refeições eles estavam sempre ao nosso lado.  Eram tão carinhosos, educados e brincalhões que quase os adotamos.  Não fosse a limitação de espaço no Roots certamente os teríamos trazido conosco.

Passamos um belo período lá e a cada dia que acordávamos naquele paraíso decidíamos adiar nossa partida para o seguinte.  A temperatura da água, o calor ameno, a brisa do mar, o sol, a companhia dos cães, a tranquilidade foram os elementos que marcaram nossa última estadia no Peru.  Foram dias que percebemos que é possível aproveitar uma viagem gastando muito pouco e vivenciando os dias de forma bem simples mas com imensa satisfação.

Mas, infelizmente, nossa autorização de permanência no Peru estava expirando e tivemos que deixar aquele paraíso para seguir em direção à fronteira com o Equador.  Após quase 3 meses de estadia aquele era o final de nossa passagem pelo Peru, um país que nos surpreendeu por diversas razões e, principalmente, pela riqueza histórica e pela diversidade e quantidade de tesouros naturais que descobrimos.

A passagem pelo Peru nos fez refletir sobre o quão ignorantes — nós, os brasileiros — somos a respeito da história de nossos países vizinhos e o tanto de oportunidades que foram por nós — os sul americanos — desperdiçadas em transformar um continente com um potencial gigantesco em um local de desenvolvimento, igualdade e progresso de forma equilibrada a toda a sua população. 

Questões como essas às vezes nos trazem reflexões profundas e, talvez, até conclusões divergentes mas o fato irrefutável e inconteste é que o Peru é um país que oferece aos viajantes uma ótima oportunidade de contato com natureza e cultura riquíssimas.

Deixamos esse querido e receptivo país com belíssimas lembranças e um desejo de em breve retornar para explorar a sua parte amazônica que, infelizmente, não pudemos fazê-lo nessa passagem.

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