Os Tesouros do Peru (parte 1)

Os Tesouros do Peru (parte 1)

O frio da Bolívia nos havia convencido a mudar o roteiro de nossa viagem uma vez mais.  Depois de tanto tempo enfrentando baixas temperaturas desde que saímos do Uruguai, estávamos, agora, em busca de um pouco de sol e calor.  Passar o inverno na Patagônia, conforme havíamos planejado inicialmente, deixou de ser uma opção, e nossa viagem seguiu para o norte da América do Sul.

Então, ao invés de descermos para o Chile, rumamos para o vizinho andino do norte, o Peru.  Quando contornamos o lago Titicaca e cruzamos a fronteira para esse novo país, não tínhamos muita noção do que encontraríamos.  Havíamos estado em Machu Picchu seis anos antes como turistas convencionais, mas nem imaginávamos como seria o resto do país. 

Pensávamos em algo com muitas características similares a Bolívia embora com um nível de desenvolvimento econômico um pouco mais acentuado, mas a verdade é que acabamos muito surpreendidos com o que vimos.  O Peru não é nenhum primor em termos de desenvolvimento econômico e social, porém foi possível observar que o país que vem evoluindo a passos largos nesses últimos anos e a distância em relação a Bolívia nesse quesito é abissal. É claro que são países diferentes e que passam por processos político-econômicos muito distintos na última década e meia, mas como havíamos recém saído da Bolívia, as comparações foram automáticas e inevitáveis.

Nos quase 3 meses que passamos no território peruano, encontramos um país em franca expansão econômica e cheio de riquezas: um povo muito receptivo, cortês e orgulhoso de seu país; uma enorme variedade de culturas; uma riquíssima história pré e pós-colombiana; e uma deliciosa gastronomia.

Nem tudo são flores, obviamente. Trata-se de um país que ainda enfrenta muitas mazelas crônicas típicas dos países latino-americanos, como a desigualdade social, um baixo nível de educação da população em geral e problemas de saneamento nas cidades de maior porte, mas explorar esse país foi uma experiência que nos proporcionou um enorme prazer.

O país conta com uma razoável estrutura para receber overlanders e não tivemos muitas dificuldades para ficarmos bem instalados ao longo de todo seu território. Além disso, o país nos ofereceu uma enorme oportunidade de conhecimento histórico e de culturas. O Peru foi berço da primeira civilização sul americana (a Caral) e de várias outras como a Nasca, a Moche, a Wari e, obviamente, a Inca — que formou o maior império ocidental do período pré-contemporâneo, estendendo-se desde o norte da Argentina até a Colômbia.  Além disso, o Peru teve, também, um período colonial muito interessante, tendo sido o vice-reinado mais próspero da América espanhola e palco comum de sucessos dos heróis libertadores Bolívar e San Martin.

Mas, além do povo, da história, da cultura, do desenvolvimento econômico e da culinária, o Peru nos surpreendeu também com suas paisagens. Com uma natureza muito generosa ou muito inóspita, o país apresenta regiões com características naturais completamente distintas uma das outras.  Dos Andes ao litoral do Pacífico ou da selva e dos desertos do centro-sul às praias do norte, existem diversos “Perus” dentro de um mesmo país e cada um deles com um enorme número de tesouros que merecem ser explorados. E podemos dizer isso mesmo sem ter conhecido a região amazônica peruana, que tivemos que deixar para depois por conta do esgotamento da nossa permissão de estadia no país.

Começamos nossa passagem no Peru por Puno, às margens do lago Titicaca. A primeira coisa que fizemos na cidade foi contratar o SOAT, o seguro obrigatório para veículos que é aplicável também aos de procedência estrangeira.  Essa foi a mais intensa recomendação do pessoal da fronteira para evitarmos problemas com autoridades policiais.  Finda a obrigação, fomos passear a pé pela cidade para conhecê-la.

Como já havíamos explorado o lago pelo lado boliviano, abdicamos dos passeios oferecidos pela ampla rede turística da cidade e nos limitamos às ruas centrais, repletas de bares e restaurantes. A cidade é bastante organizada e ficamos impressionados com o preço das coisas, que estava muito mais baixo que do outro lado da fronteira.

Precisávamos reabastecer nossa despensa para os próximos dias e, então, fomos ao supermercado.  Depois de dois meses com uma variedade restrita de produtos, aquelas prateleiras lotadas de opções parecia um colírio para nossos olhos e acabamos fazendo uma compra bastante grande.  

A noite acabou num jantar com nossos amigos, Gabriel e Julia, numa pizzaria muito aconchegante de Puno chamada MachuPizza. 

O Gabriel e a Julia formam um casal que está fazendo um percurso muito similar ao nosso porém numa Defender 90, apelidada de Scarlet, e cujo nome do projeto foi definido como “Casei sem Casa” por terem partido para essa expedição de aproximadamente ano e meio pela América do Sul apenas uma semana após terem se casado

Havíamos nos conhecido pouco antes de nossa partida em São Paulo quando estávamos ajustando o Roots para a parte internacional de nossa viagem e nos reencontramos no fim de nossa passagem pela Bolívia, onde decidimos explorar juntos a parte centro-sul do Peru.

Naquela primeira noite no Peru, dormimos em nossos carros num posto de gasolina já perto da saída da cidade, pois teríamos uma longa jornada pela estrada a partir do dia seguinte.  Nossa rota se estenderia por cerca de 400km até Cusco, onde ficaríamos por um bom tempo na antiga capital do império Inca e, na sequência, exploraríamos os demais atrativos do Vale Sagrado. 

Fizemos esse percurso ao longo de dois dias de viagem, aproveitando bem os pontos interessantes ao longo do caminho.  Logo na saída de Puno paramos no Fondo Chincheiro, onde tomamos nosso café da manhã reforçado para enfrentar a longa viagem que tínhamos pela frente. A fazenda de turismo rural é administrada por um peruano de ascendência holandesa que nos contou a interessante história da propriedade desde os tempos dos espanhóis.

No caminho visitamos Lampa e Ayaviri.  A primeira, conhecida como “a cidade rosada” por conta da cor do barro que recobre suas construções antigas, tinha como principal atrativo a Igreja de Santiago Apóstolo.  Essa igreja é uma enorme construção jesuítica em meio à pequena cidade que data da segunda metade do século XVII e possui uma arquitetura de fazer qualquer um cair o queixo. 

A igreja é considerada patrimônio cultural do país e conta-se uma interessante passagem histórica, na qual Tupac Amaru II, líder da rebelião contra os colonizadores nos fins do século XVIII, aniquilou soldados espanhóis que ali se escondiam e cujos esqueletos ali se perpetuaram.

Eles foram pendurados numa cripta em uma forma que, apesar de fúnebre, compunham uma imagem muito interessante. Acima dessa cripta está a única réplica em tamanho exato da obra de Michelangelo, “La Piedad”, no mundo.

Em Ayaviri, a segunda cidade visitada no dia, nossos planos seriam de experimentar o kankacho — um delicioso prato de cordeiro e batatas que é famoso na região — e fazer um camping selvagem aos pés dos canyons Tinajani.  Infelizmente tivemos que nos contentar somente com a primeira parte, já que naquele fim de semana Ayaviri estava recebendo pessoas de toda a região para a celebração de uma festa tradicional e o local escolhido para os festejos era exatamente o ponto onde acamparíamos a noite.

O local havia se tornado em um caos, onde milhares de pessoas haviam chegado em caminhões, vans e ônibus que ocuparam toda a base dos canyons.  Chegamos até a considerar ficar ali mesmo já que os veículos voltariam para a cidade à noite e no dia seguinte poderíamos acompanhar as festividades, mas o cenário era tão caótico e a fila de gente e vans tão gigante que resolvemos abortar a missão.

Restou-nos então seguirmos um pouco mais adiante e parar no estacionamento de uma fábrica de queijos, onde passamos a noite assistindo um documentário sobre o Peru na companhia de nossos companheiros de viagem.

Saímos bem cedinho naquela manhã para chegarmos em Cusco o mais cedo possível.  Queríamos assistir a partida de futebol que aconteceria naquela tarde pela final da Copa América, em que Brasil e Peru se enfrentariam. 

O plano deu certo e pouco depois das 13hs chegamos em Cusco e descarregamos tudo no apartamento que havíamos alugado pelo AirBnB.  Em seguida, partimos os quatro para a Praça de Armas para assistir o jogo que passaria em telões armados pela municipalidade no centro da cidade. 

A praça estava tomada por milhares de peruanos e estrangeiros vestidos com a camisa do Peru, que pela primeira vez havia chegado à final do torneio.  O clima era de festa total e nem mesmo a presença de alguns brasileiros vestidos com as cores verde e amarelo em meio à multidão abalava a felicidade e o orgulho do povo. Além disso, julho é o mês das festas patrióticas no Peru — dia 28 comemora-se a independência do país — e a cidade estava duplamente em festa, com diversas bandeiras e símbolos nacionais espalhados pelas ruas.

Terminada a partida nos surpreendemos com o comportamento do povo peruano. Mesmo com a vitória do Brasil e a frustração do sonho do título, a multidão estava feliz e continuou a fazer festa na praça.  Muitos fizeram questão de celebrar respeitosamente junto aos brasileiros presentes e com verdadeiro espírito esportivo, diversos deles pediram que saíssemos em suas selfies, aproveitando que carregávamos conosco uma bandeira do Brasil.  Uma reação que jamais imaginaríamos para um país tão fanático por sua seleção e tão patriótico.

Nesse dia havia, também, duas outras razões especiais para festejarmos. Era aniversário da Samira e completávamos extaos 1 ano de viagem.  Em meio à comemoração pela vitória, resolvemos prolongar nossa celebração, apreciando ceviches e pisco-sauers num dos melhores restaurantes de Cusco.  Além da alegria de podermos celebrar aquela data especial em condições ímpares, acabamos matando dois desejos que há tempos aguardávamos ansiosamente.

Em condições normais, aquela conta seria uma afronta à disciplina financeira da viagem, mas, nesse caso, tratava-se de uma situação excepcional, um excesso consciente e muito bem justificado.  Havíamos estabelecido uma premissa em nosso planejamento de que teríamos que ter uma verba, ainda que mínima, para algumas extravagâncias e naquela noite e nos esbaldamos com o prato e o drink n.1 dos peruanos.

Os dias que se seguiram em Cusco foram muito agradáveis. A cidade estava cheia de turistas, o que não é incomum, mas pegamos todos os dias com céu azul e sol brilhando. Isso não significava que a temperatura fosse alta, muito pelo contrário, mas visitar a cidade com dias ensolarados é outra coisa.  Cusco é repleta de construções e monumentos históricos e, abstraindo os vendedores que te abordam o tempo todo oferecendo passeios e opções de restaurante, passear pelas ruas e vielas da cidade é muito agradável e uma aula de história ao vivo.

Aproveitamos um dos dias de nossa estadia e fomos até a montanha Winikunka.  Mais conhecida como “Montanha Colorida”ou “Rainbow Mountain”, por conta das diversas tonalidades dos minérios que a compõem, o pico da montanha se encontra a 5.100metros de altitude e nosso objetivo era subir até lá.  

Saímos dos cerca de 3.300mts de Cusco e fomos de carro até a base da montanha, a 4.200m de altitude, por uma estrada extremamente íngreme e estreita. 

No caminho tivemos um contratempo com dois motoristas de vans que se encontraram em sentidos opostos na estrada pouco a frente de nós e que não queriam retroceder. Depois de longos minutos de discussão ambos resolveram brigar na base de socos e chutes e o Eduardo e o Gabriel saíram dos carros para apartar a briga e liberar a estrada.  Provavelmente o taco de baseball que carregavam intimidou os brigões e rapidamente a situação estava resolvida.

Iniciamos então nosso percurso a pé até o topo da montanha.  Foram pouco mais que 3km de subida constante e uma ladeira bem íngrime na última parte do trajeto. Esse último trecho exigiu muito preparo físico e mesmo estando acostumado com as caminhadas pela altitude da Bolívia fomos obrigados a parar a cada 100metros para poder respirar e recuperar o fôlego.  Com certa dificuldade, chegamos ao cume, alcançando os 5.100mts.

Regressamos a Cusco no final da tarde e passamos mais uns dias curtindo a cidade. Na sequência pegamos a estrada para explorar outros pontos do Vale Sagrado e paramos para conhecer as famosas salinas de Maras antes de chegar em Ollantaytambo. 

A cidade é muito charmosa e acabamos ficando uns dias por lá. Foi muito bom conhecê-la com calma dessa vez, diferente do que fizemos há seis anos quando paramos nela basicamente para fazer baldeação a caminho de Machu Picchu.  Além de visitarmos ruinas e templos incas que existem por lá, aproveitamos a farta oferta de bares e restaurantes da cidade e pudemos curtir um pouco da culinária local. 

Numa das tardes fomos, ainda, até um local à margem do rio e em meio as montanhas do vale sagrado para fazermos um delicioso churrasco ao ar livre.  Até quando o frio nos permitiu, ficamos apreciando a lua cheia que brilhava no céu batendo longos papos em volta de uma fogueira rusticamente preparada com galhos e plantas secas que reunimos do entorno.

Deixamos Ollantaytambo e fomos até a hidroelétrica de Santa Teresa, de onde subiríamos a pé até Machu Picchu Pueblo.  A estrada até lá é incrível e vai recortando as montanhas em curvas acentuadíssimas, formando diversos “caracoles” em meio a uma exuberante mata. A serração nas partes altas da estrada era intensa e no ponto mais elevado do caminho chegamos a ver pequenos flocos de neve chocando-se em nossos para-brisas.

Quando saímos da estrada principal para pegar a secundária até a hidroelétrica, outro trecho surpreendente.  Em meio às montanhas, a estrada tinha partes muito estreitas onde mal passa um carro e de tão encravada nelas, sentíamo-nos andando praticamente no limite, vendo das janelas de nossos carros apenas os penhascos e o rio que corria lá embaixo.  Passávamos de um lado a outro pelas pontes e curvas da estrada, torcendo para não encontrarmos nenhum dos loucos irresponsáveis que guiavam taxis e vans no sentido contrário.  Eles simplesmente desenvolviam velocidades absurdas no meio daqueles precipícios, botando à prova nossos anjos protetores e exigindo de nossas buzinas um trabalho incessante.

Mas, enfim, chegamos são e salvos à hidroelétrica e começamos nossa caminhada de 12km montanha acima para chegarmos ao nosso destino.  Todo o percurso vai beirando a linha do trem e a inclinação não é muito acentuada, fazendo com que a “trilha” seja bastante leve.  À medida que chegávamos perto da cidade, olhávamos para cima tentando localizar ruínas e identificar trechos do caminho inca, que o Eduardo havia percorrido na sua visita anterior.

Quando chegamos a Machu Picchu Pueblo — nova denominação da antiga Águas Calientes — tomamos um susto. A cidade havia se transformado de uma maneira tal que nada lembrava a rusticidade daquela pequena vila que visitamos há seis anos atrás.  Preparada para receber um enorme volume de turistas, o povoado agora possui hotéis de luxo, dezenas de pousadas e restaurantes, prédios, um farto comércio e muita, muita gente nas filas dos ônibus para subirem às ruinas históricas.

Além dos preços terem subido vertiginosamente desde nossa última visita, o charme daquele pequeno vilarejo foi destruído por uma indústria de turismo de massa. Questão de gosto mas, apesar das construções seguirem um padrão e serem minimamente organizadas pela prefeitura, para nós essa segunda passagem por Machu Picchu foi uma decepção total.  Tanto assim que nem ficamos motivados a visitar novamente o sítio arqueológico onde ficam as ruinas, que agora possui uma série de regras e tempo limite para serem visitadas.

No outro dia fomos tomar um café da manhã bem demorado numa padaria francesa da cidade, aguardando o Gabriel e a Julia voltarem de seu passeio pelas ruinas para passearmos pela cidade.  No dia seguinte descemos pela mesma trilha à beira do trem para pegar nossos carros e fazermos mais uma maratona pela estrada.  Da hidroelétrica de Santa Teresa iríamos para Lima, num percurso de mais de 1.100km, que nos tomaria praticamente 3 dias de viagem.

O primeiro trecho foi mais curto por conta do horário que havíamos deixado Santa Teresa. Basicamente refizemos o caminho pela mesma estrada até quase a entrada de Cusco e de lá pegamos outra direção até chegarmos a Limatambo, já à noitinha.  Dormimos na praça da cidade e ao amanhecer do segundo dia partimos com destino a Nasca, próximo local de pernoite.

Nesse segundo dia de viagem, bem mais longo, percorremos um dos trechos mais interessantes e diversificados do Peru. Começamos na parte baixa de uma falha geológica enorme, o Cânion Apurimac, e aos poucos fomos subindo, subindo e subindo. Atravessando o cânion pelas pontes “colgantes”, que uniam uma montanha a outra, chegamos ao topo da falha passando por diversas partes da estrada que cederam por conta do terreno instável.  

Nessa primeira parte da estrada em meio ao desfiladeiro, foi possível ter uma aula de geografia em campo, compreendendo como o relevo da região andina é formado.  Observando atentamente as montanhas gigantes que cercam esse vale, víamos claramente que elas eram o resultado do movimento de placas tectônicas que se chocaram há milhares ou milhões de anos e se ergueram do chão quase que em ângulos retos.

Percorremos mais uns quilômetros pelo topo dessa formação, atravessando alguns pequenos povoados até que, de uma altitude superior a 4mil metros, começamos a descer por uma íngreme estrada de cerca de uns 50km até a parte mais baixa de um outro vale, onde fica a cidade de Abancay, a pouco mais de 2.300metros de altitude.

A partir daí começamos um novo trecho, absolutamente deslumbrante. Pegamos a Ruta 30A — a qual cremos ser uma das estradas mais bonitas do Peru — e fomos margeando o rio Pachachaca pelo fundo do vale que leva o mesmo nome.  Por uns 150km percorremos entre os desfiladeiros desse vale essa linda estrada espremida entre os penhascos e o rio.  Então recomeçamos a subir até chegamos à região das lagoas altoandinas, praticamente um platô no alto das montanhas antes de chegarmos ao distrito de Puquio.

Lá, numa altitude superior a 4.500mts., passamos por lagoas exuberantes, extensos campos recobertos por uma vegetação dourada e aglomerações de pedras em formatos muito curiosos. Ocupada apenas por pequenos povoados, lhamas, alpacas e rebanhos de cordeiros, parecia que estávamos rasgando o céu de tão alto que estávamos e de tão bela que era a paisagem. 

A poucos quilômetros de Nasca começarmos a descer pela estrada em suas intermináveis curvas de 180 graus e fomos abençoados por uma paisagem fenomenal.  De dentro de nossos carros fomos testemunhando um poente lindo, com o sol se colocando por detrás das montanhas e criando sobre elas um contorno de cor dourada-alaranjada. Em algumas oportunidades fomos obrigados a parar o carro para fotografar aquele espetáculo magnífico.

Infelizmente quando chegamos a Nasca não conseguimos aproveitar muito. Depois de dois dias passando por lugares tranquilos e lindos, a cidade ficou aquém de nossas expectativas. Só vimos caos e confusão num centro de cidade muito agitado e, então, decidimos jantar rapidamente num restaurante e irmos direto para um posto de gasolina na beira da estrada para passarmos a noite.  Acordaríamos muito cedo no dia seguinte para fazer o último pedaço de estrada que nos levaria até Lima.

Logo na saída da cidade passamos pela parte do deserto onde se encontram as famosas linhas de Nasca.  Paramos e subimos no mirante para observar do alto três desenhos no chão.  O ideal seria fazer o voo panorâmico de avião pelo deserto e visualizar as dezenas de símbolos que provavelmente foram desenhados pela extinta civilização Nasca — que dominou aquela região antes da expansão do império Inca —, mas essa não foi nossa opção.

Com muitas recomendações do guarda-parque, subimos com o drone e conseguimos visualizar melhor as linhas.  Tínhamos que nos ater aos limites da estrada, pois caso acontecesse algo e o drone tivesse que pousar no deserto não poderíamos ir resgatá-lo por ser uma área de acesso restrito.  Conseguimos, mesmo assim, fazer umas boas imagens e depois fomos voltamos aos carros para tomar nosso café da manhã e seguirmos pelos quilômetros restantes até chegarmos a Lima.

De lá até a capital peruana foi só deserto. Um trecho árido onde apenas areia e terra margeavam a estrada.  Um pouco antes da região de Ica passamos por umas montanhas enormes que pareciam formadas pela própria areia e lá de cima pudemos observar alguns oásis cercados por plantas e árvores de um verde bem vívido, que se destacavam em meio ao deserto.  Mesmo nos aproximando da costa do oceano Pacífico não se via nada além de deserto.  Aliás, uma das razões pela qual aquele longo deserto existe é justamente por conta do Pacífico e sua corrente fria.  O árido foi se estendendo até Lima e o céu começou a se acinzentar.

Havíamos saído de uma ensolarada Nasca e chegamos ao fim do dia no nublado e carregado céu de Lima. Com exceção do período entre meados da primavera e verão, a capital tem raríssimos dias de sol e por isso a cidade é também conhecida pela alcunha de “A Cinzenta”.

Apesar do céu quase que permanentemente fechado, a cidade não é triste. Pelo menos a orla da capital peruana, onde ficamos quase que todos os dias de nossa estadia, é muito utilizada por seus habitantes e turistas e muito bem cuidada. Há uma extensa ciclovia, muitos parques e praças com monumentos e, também, bastante equipamentos esportivos, atraindo muitos praticantes de esportes. 

O Moises, tio do Gabriel que mora há muitos anos em Lima, havia convidado para nos hospedarmos em seu apartamento e acabamos ficando por lá mais de duas semanas. Nesse período pudemos visitar museus, bares, assistir teatro e cinema. Os bairros de Miraflores, San Isidro e Barranco oferecem muitas opções de lazer e uma vida social bastante movimentada.

Some-se a isso o fato de termos chegado à cidade justo na época em que estavam ocorrendo os Jogos Panamericanos e Lima estava ainda mais alegre e festiva por conta dos atletas e um maior numero de turistas.

Tivemos a oportunidade de assistir a maratona, algumas partidas de volley de praia e acompanhar pela televisão dos bares espalhados pela cidade diversas competições.  Testemunhamos como o povo estava orgulhoso de sediar o evento e de sua participação nele. Foram os jogos em que o Peru conquistou mais medalhas na história e isso deu ainda mais razões para que essa edição do Panamericano fosse um retumbante sucesso.

Apesar de algumas corridas pela orla, nosso verdadeiro esporte pela cidade teve outra natureza. Lima é conhecida como uma das capitais gastronômicas do mundo e pudemos provar e comprovar isso nessa viagem.  A quantidade de restaurantes na cidade é surpreendente e todos, por mais simples que sejam, tem uma característica comum, que é a excelente qualidade da comida que servem.

Do mercado popular a restaurantes refinados, todos os pratos que experimentamos foram extremamente saborosos. O forte da cozinha peruana é o pescado e seu uso com diversos outros tipos de alimentos parece ser uma arte nata do povo da capital.  Ceviches, arroz de chaufa, caldos… tudo é muito saboroso e colorido.

Mas nem só de pescado que vive a gastronomia peruana. Há, também, uma grande oferta de comidas regionais, contemplando alimentos típicos do interior como cordeiro, lhama, porco, milho, batatas etc… assim como muitos restaurantes de comida internacional.  Muitas vezes com um toque peruano, a cidade é recheada de opções indianas, tailandesas, japonesas, italianas e até brasileiras.  Qualquer glutão ou amante da gastronomia se sentirá muito à vontade por lá. Uma pena que os preços dos vinhos não são tão convidativos…

Mas enfim, após uma excelente estada e uma calorosa acolhida que tivemos do Moisés e de sua família, em especial Anne e Enrico que se preocuparam em fazer de nossa estadia o mais confortável possível, nossa hora de partir e continuar a viagem havia chegado. 

Havíamos coletado diversas dicas com o Moisés sobre possíveis destinos, já que ele é um profundo conhecedor do Peru e sua história, e pegamos a estrada.  Cogitamos até voltar um pouco para o sul para conhecer a região de Ica e o oásis Wakachina antes de subirmos em busca do sol, do calor e das praias do norte, mas nossas pesquisas apontaram ser um destino extremamente turístico, o que era exatamente o oposto do que nós buscávamos naquele momento. 

Partimos então pela Ruta 1N, a Panamericana Norte, e nosso primeiro destino foi um dos paraísos do surf no Peru ….. (continua no próximo post)

EnglishFrenchGermanItalianJapanesePortugueseSpanish