Reflexões após 1 Ano na Estrada

Reflexões após 1 Ano na Estrada

No último 07 de julho completamos um ano na estrada.

Nossas vidas, entretanto, começaram a mudar antes disso.  Quando decidimos comprar o Roots começamos a planejar um estilo diferente de vida, mais leve, mais tranquilo, menos frenético. Não sabíamos o que queríamos muito bem, só sabíamos que queríamos tomar o controle do tempo de nossas vidas.

A decisão de fazer a viagem ao redor do mundo não tardou a chegar. Adorávamos viajar e conhecer coisas novas e quando ela surgiu foi muito atrativa e nos convenceu rapidamente.  Era a coisa certa a fazer naquele momento e foi a parte mais fácil da decisão.

Difícil foi planejar algo baseado em experiência nenhuma, soltar as amarras que nos prendiam à vida que sempre tivemos, largar o conforto, deixar de lado uma carreira, se afastar dos amigos e da família, frustrar expectativas e mudar planos de longo prazo…. definitivamente não se passa por um processo desses ileso ou sem perdas.

Da época de nossa decisão até a data da partida foram só dúvidas, planos, dilemas, expectativas e sonhos.  Agora, passado um ano de nossa partida, já temos alguma experiência na estrada e alguns quilômetros rodados. Na verdade, já temos bastante quilômetros rodados.  Foram 39.308 ao longo de 6 países (Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina, Bolívia e Peru), dormindo em 122 cidades diferentes tendo o carro como nosso teto e nenhuma parede a nossa volta.  Mas os números são o menos importante, o que valeu mesmo foi a experiência e o aprendizado acumulado nesse último ano de vida.

A maior satisfação de todas é olhar para atrás e ver que não houve um instante sequer em que tivemos o desejo de desistir da viagem nem o sentimento de arrependimento da decisão tomada.  A adaptação ao novo estilo foi muito tranquila e não tivemos grandes dificuldades em conviver num lar tão pequeno mas com um imenso jardim a nossa volta.

A nossa vida hoje tem muito mais qualidade, o companheirismo aumentou, o consumismo diminuiu, as experiências se acumularam, o desapego de coisas sem grande significado passou a fazer muito sentido…. essas conclusões só confirmam o quão acertada foi nossa mudança de vida. Não viramos monges, obviamente, mas estamos vivendo uma vida muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais completa.

Tão bom quanto isso, os principais medos que tínhamos antes da viagem estão sendo bem administrados.

A questão financeira — que planejamos muito — não tem sido um problema. Atualmente gastamos bem menos e bem melhor do que quando morávamos em São Paulo e mantemos nossa despesa abaixo da receita.  Estamos dentro do nosso orçamento, embora estejamos acima do que desejávamos por conta de algumas extravagâncias conscientes.

A todo momento conhecíamos pessoas e lugares novos e o desejo de fazer tudo foi uma tentação permanente.  Mas, como se diz, “dia de muito, véspera de pouco”.  Procuramos avaliar com cuidado o quão importante era determinado gasto e consideramos o que poderíamos fazer com determinado valor antes de realizarmos uma despesa.  Se gastássemos muito num dia ou num período, compensávamos nos dias ou períodos seguintes.

O outro desafio, do convívio permanente, se mostrou na verdade uma bela oportunidade de melhora do relacionamento.  A companhia agradável, os gostos parecidos e a ausência de uma rotina repetitiva nos ajudam bastante nessa convivência, mas estar juntos as 24horas do dia os 7 dias da semana nos obrigou a sermos ainda mais zelosos um com o outro. 

Obviamente que ao longo desse tempo tivemos nossos conflitos e diversas vezes brigamos ou discutimos como qualquer outro casal. A vantagem nesse tipo de vida é que não dá para simplesmente virar as costas e deixar que o tempo amenize o problema ou colocá-lo debaixo do tapete.  É preciso resolvê-lo rapidamente para que o ambiente de viagem não fique desconfortável.  E para isso foi preciso que elevássemos a outro patamar virtudes como a tolerância e o altruísmo.  O resultado é que estamos funcionando num nível de parceria e companheirismo muito maior que o que tínhamos antes.

Por fim, a manutenção de nossos hábitos saudáveis e de atividades físicas regulares.  Experimentar as delícias culinárias de cada lugar e ficar num “dolce far niente” são prazeres frequentes em nossa viagem, já que parte de nossos gostos comuns residem em boa culinária, boas leituras, contemplação de paisagens e umas garrafas de vinho.  Mas, por mais que seja bom, ficar só nisso não dá.  Nossos corpos precisam ser cuidados tanto quanto nossas mentes. 

Por sorte também temos em comum o gosto pela saúde e boa alimentação, então com disciplina e força de vontade vencemos em muitos momentos a tentação da gula e da preguiça.  Nossas refeições são em sua maioria leves e nutritivas. Gastamos mais de um terço de nosso orçamento com alimentação, sendo a sua grande maioria em comidas e bebidas de boa qualidade — “junk food” ficam restritas a ocasiões bastante esporádicas.  Caminhadas, corridas, trilhas e outras atividades físicas também fazem parte de nossa rotina e acabamos por manter o hábito de fazer exercícios físicos básicos com alguma frequência. Nada de sedentarismo.

Enfim, em nossas reflexões após 1 ano de viagem chegamos a conclusão que os prós superam com larga margem os contras e que o saldo é extremamente positivo. Em outras palavras, os desafios nos fizeram mais fortes e as sensações de liberdade, flexibilidade e independência são impagáveis.

Isso, entretanto, não significa que tudo tenham sido flores o tempo todo.  A vida na estrada também tem seus desafios e revézes e, assim como qualquer outra, requer certos cuidados e um pouco de disciplina.

O normal é que todos os dias sejam diferentes um do outro e sem um mínimo de controle ou de rotina, teríamos perdido algumas referências ou noção de limites. Se tivéssemos deixado tudo ao sabor do vento e das marés, talvez não tivéssemos aproveitado muitas oportunidades que surgiram ou nem tivéssemos previsibilidade sobre a continuidade da viagem.

É importante, também, fazer um constante exercício mental de avaliação da viagem em seus diversos aspectos e estar aberto à mudanças ou pequenos ajustes.  Desde questões objetivas e materiais como os tipos de hospedagem, o conforto no carro e a qualidade da alimentação, quanto os aspectos mais pessoais, como o ritmo da viagem, o comportamento próprio e do parceiro, a sensação de crescimento pessoal e a satisfação geral precisam ser avaliadas e discutidas abertamente para que as correções de curso possam ser feitas a tempo de evitar que problemas se acumulem e soluções fiquem mais difíceis.

E, tão relevante quanto isso, celebrar.  Cada dia da viagem, cada novo país ou cidade, cada conhecimento acumulado ou experiência passada é um presente que precisamos aprender a agradecer e comemorar sempre.  É muito fácil para o ser humano reclamar, aborrecer-se, criticar, ter raiva ou outros sentimentos negativos. A nossa natureza parece nos direcionar nesse sentido.  Portanto, é preciso uma dose de esforço para não nos esquecermos de celebrar tudo aquilo que não precisa de ajustes e que nos está dando prazer.

Esse nosso primeiro ano na estrada foi excelente e um período de muito aprendizado e de convivência que merece ser comemorado.  Esperamos ter muitos outros para celebrar.

Planejamos agora seguir para o norte da América do Sul e depois descermos à parte meridional do continente.  O frio que passamos na Bolívia nos afugentou dos planos de passar o inverno na Patagônia e decidimos matar as saudades do sol antes de chegarmos por lá na época de verão. Em 2020 devemos encerrar nossa passagem por aqui e finalizar nosso planejamento do próximo continente a ser visitado.

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